E se da próxima vez que fosse falar sobre a sua ideia, você não falasse a sua ideia?

A pergunta é um pouco estranha, mas tive que fazê-la para um amigo empreendedor. Não foi a primeira, tampouco será a última, que um amigo chega até a mim com a ideia da “próxima grande coisa” (ou o próximo Uber, LinkedIn, Basecamp, etc).

Aliás, já vi tantas vezes a próxima grande coisa que uma hora dessas é provável que eu realmente veja a próxima grande coisa. Exceto pelo fato de que não, a próxima ideia que escuto não aproxima ninguém da próxima grande coisa.

Mas eu não sou pessimista, só quero ajudar (de verdade).

Você já parou pensar no mal que podemos estar fazendo quando, sem critério algum, incentivamos alguém a seguir com uma ideia que talvez não resolva nada para ninguém?

Pois é.

Quantas vezes você já elogiou a ideia de um amigo só pra se livrar da conversa? Ou então guardou para si o absurdo que achava sobre o que ele estava falando?

Acontece.

Acredito que temos três grandes razões para fazermos isto.

  1. Não queremos nos indispor com nossos amigos, então achamos melhor concordar com eles.
  2. Não acreditamos que de fato eles farão alguma coisa a respeito e seguirão com o desenvolvimento da ideia.
  3. Acreditamos que nós não entendemos dessas coisas e inclusive talvez devêssemos compartilhar do entusiasmo deles.

O problema é que nenhuma dessas razões vai ajudar de verdade alguém que está pensando em investir numa ideia, projeto, produto, etc. Então quando esse meu amigo em específico contou para mim que já tinha validado a sua ideia com algumas pessoas, eu pedi para que ele me falasse um pouco mais sobre como tinha feito isso.

O que eu ouvi foi a velha história de empreendedores (ou pessoas que querem empreender) que só estão à procura de uma espécie de bênção dos outros e acreditam realmente que estão sendo criteriosos no seu “processo”.

Nesse caso do meu amigo, parece óbvio que as pessoas podem não estar sendo 100% sinceras.

Mas e quando somos nós que estamos querendo “validar” uma ideia, por que acreditamos que isso não se aplica?

A realidade é que quando mencionamos nossa ideia para quem quer que seja, estamos correndo o risco de não obtermos informações confiáveis.

Não importa o quanto digamos para a outra pessoa que ela pode ser sincera, que estamos preparados para ouvir a verdade, que você vai continuar sendo amigo(a) dela, etc. Trazer a ideia à tona logo de cara com certeza não é o melhor caminho.

Isto vale ainda mais quando estamos muito no “início”, como nas fases de ideação e desenho, por exemplo. Coloco aspas porque início mesmo é explorar corretamente o problema 😉

Mas voltando ao caso do meu amigo, logo depois que me explicou como havia conversado com outras pessoas, eu o indaguei:

E se da próxima vez que fosse falar sobre a sua ideia, você não falasse a sua ideia?

E, é claro, ele não entendeu exatamente o que eu queria dizer.

Para não magoar esse meu amigo, não vou citar seu nome, nem entrar em detalhes sobre o que exatamente o produto dele faria. Vou dizer que o produto dele resolvia o problema X. Além disso, de acordo com ele, X era um problemão que o frustrava toda a vez que o resolvia. E como as circunstâncias em que X acontecia eram muito comuns, o mercado de X era muito grande.

Mas quando ele me explicou em detalhes esse contexto, expliquei que o problema X não tinha a mesma magnitude para mim que tinha para ele. Mas salientei que isto não deveria desanimá-lo. Afinal de contas, eu poderia ser um ponto fora da curva. Aproveitando a deixa, mencionei que já que pontos fora da curva existem, seria interessante buscar um pouco mais de evidências exclusivamente sobre o problema.

Eu disse algo como: “Quem sabe você se desloca e participa da situação (do contexto) onde o problema X acontece e interage com as pessoas que estão vivenciando ele? Ah, e sem mencionar a sua ideia?”

Com essa provocação ele começou a refletir e concordou que seria mesmo válido ver como as pessoas reagiam e, muito importante, tentavam resolver o problema. Não só ele, mas todos que estão pensando/desenhando/construindo uma solução têm muito a ganhar em interagir, observar e conversar com pessoas que estão passando ou passaram pelo problema que essa solução pretende resolver.

Tudo isso sem mencionar a ideia/solução.

Mas qual o problema de mencionar a solução?

Além das três razões em relação ao relacionamento com as outras pessoas que mencionei no início, trazer a ideia à tona tem a tendência de mudar todo o contexto da conversa. É praticamente impossível que você, ao explicar a sua ideia, não tente “defendê-la”. Enquanto isso, pelas mesmas razões, a outra pessoa passa a acreditar que você está querendo vendê-la.

Alguns podem argumentar que com a técnica XYZ é possível mitigar essa vontade ou que então pessoas experientes e abertas conseguem evitar tudo isso. Mas, além de qualquer jeito exigir certa energia por parte de quem está apresentando a ideia, melhor do que mitigar é eliminar quaisquer chances dessas tendências desvirtuarem o foco da conversa. E para isso, é melhor deixarmos a ideia de lado.

E o que fazer em vez de explicar a ideia? Bom, como os leitores do blog já podem estar cansandos de ouvir, precisamos explorar o problema e as circunstâncias onde ele ocorre. Tudo isso sempre, é claro, com base no que aconteceu e não em opiniões.

Mas voltando para a história do meu amigo…

Ele topou deixar a ideia de lado das próximas conversas e, assim, conseguiu descobrir bastante coisa. Além de agora ele ter uma noção muito melhor da frequência e da relevância do problema, muitas outras questões apareceram. Dentre elas, um problema maior e com mais potencial para justificar uma nova solução (por sinal, bem diferente da ideia que originou a nossa conversa).

Então, da próxima vez que formos falar sobre a nossa ideia, vamos deixá-la de fora da conversa?

Pode ser que muita coisa aconteça. Mas seja o que for, caso você esteja aberto e genuinamente curioso, pode ter certeza de que é algo muito mais próximo da realidade.

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